7/10/2008

Confesso que, no começo, fiquei confuso. Sentado naquela poltrona do Cinemark, a Maricota do meu lado conversando com o Lu, a tela passando os créditos, o cara gordo ao meu lado, aquele que chegou atrasado e fez uma sofrida passagem até seu lugar, ele conversa com a namorada/noiva/esposa, e diz que é assim mesmo, que a verdade tem de ser mostrada, mesmo numa sala de cinema do xópis. Não que eu tenha ouvido esta conversa, pelo menos não exatamente deste jeito, mas você sabe do que eu estou falando: Willian Bonner, Fátima Bernardes, a nação bovina do nojinho politicamente correto, Jornal Nacional.
Esta introdução toda apenas para falar do inevitável, que pode ser contemplado de dois pontos de vista.
Primeiro, Meirelles. O cara colocou um marco bem no começo de uma nova fase do cinema nacional, uma fase moderna, onde a diversão anda lado a lado com uma proposta de cinema ativo e descolado das convenções do teatro filmado que ainda faz o espectador nacional sofrer. Depois de fazer isso, ele foi para a Gringolândia, e mostrou que é tão bom, ou até melhor do que os caras no jogo. Num legítimo tira-teima, sobreviveu à prova enquanto seu conterrâneo se afogava em um suspense burocrático. Criou um thriller político plenamente alinhado com o seu histórico em película, dirigiu seu elenco com maestria, transplantou sua estética sebastiosalgadiana para a África e topo. O que fazer agora? Qual seria o desafio?
Segundo, Saramago. O portuga é unanimidade na literatura de sua língua nativa, com adoradores em ambos lados do Atlântico. A tropa de xiitas de Saramago imita o mau humor do mestre com observação de detalhes e persistência inspiradora. Saramago circula à vontade nos corredores da academia, bem aceito em qualquer um dos cursos, de ambos os lados do espectro político. O portuga permite até um trocadilho horroroso em que eu vejo o pessoal da malhação saindo de suas, uhm, academias com exemplares de Ensaio Sobre a Cegueira sob suas axilas cuidadosamente besuntadas de anti-transpirante cercado de malhas de marca costuradas por mulheres subnutridas da Ásia. Seu êxito literário, entretanto, não parecia tão grandioso enquanto não surgisse um diretor que peitasse a transposição de um de seus livros para a telona.
A fome e a vontade de comer, em suma. Meirelles podia salvar o mundo de um patamar novo, e finalmente o portuga ia levar um aparelho de DVD e uma tevê grandona para aquela ilhazinha no meio das Canárias. Diabos, a governanta dele já estava de saco cheio de ver novela na tevezinha de nove polegadas preto e branco que ela tinha trazido da viagem ao Paraguai.
Confesso mais uma coisa: eu só li dois exemplares do Saramago, e nenhum deles é Ensaio Sobre a Cegueira. Não que isso vá fazer diferença, mas estou com uma vontade imensa de ser coerente e cuidadoso hoje. Acredite. O fato é que basta você triangular as opiniões de meia-dúzia de pessoas, comparando os dados sobre os livros que você leu, e extrapolando os que você não leu. Funciona direitinho.
Do lado direito da equação Meirelles + Saramago apareceu uma coisa esquisita e leitosa, e espero que vocês não estejam pensando em bobagem. Diabos, como pensar nisso quando os sujeitos envolvidos são um velhote de sobrancelhas gigantes e um jornalista anódino que parece ter saído dos extras de Stardust, outro filme que não, mas de que me sinto à vontade para falar de.
Ensaio sobre a Cegueira, o filme, sofre de um problema básico: Saramago escreve muito bem, a ponto de eu ser uma pessoa feliz por falar nativamente o português. Por outro lado, o homem é uma tristeza quando se põe a filosofar. Pode não parece óbvio, mas pensa que espécie de visão de mundo pode ter um ermitão isolado nas Ilhas Canárias? Na hora de levar para as telas, o invólucro se perde para se adequar à roupagem da película, e então a vaca dispara para o brejo mugindo que nem uma doida.
As tomadas são plásticas, bonitas, eu chutaria que até poéticas. As atuações merecem, vez por outra, reconhecimento, afinal, o Meirelles é profissional, caramba. Tudo bem que não dá para tirar do Mark Rufallo mais do que a aquela cara de esquerdista bonzinho preocupado com os ursos polares, e nem esperar que o Garcia Bernal faça mais do que ser um bibelô em cena. Aliás, Rufallo é a prova de que cada facção indie tem o Marcelo Camelo que merece. O Bernal seria, nesta analogia, o Murilo Benício.
O que importa é que todo mundo está ali por uma idéia, por um mundo melhor que as pessoas vão construir depois de refletir sobre este filme. Danny Glover, pelegão arroz-de-festa, está ali para garantir isso. E não adianta, não funciona: a ambientação kafkiana se perde em cacoetes, e o que era apenas um recurso para delimitar uma área de estudo vira uma razão em si.
E tome gente feia pelada. Para piorar, gente feia pelada pisando em cocô humano enquanto tateia, após perder sua fina camada de humanidade, oh! Tudo filmado com a distância adequada, para ficar bonito, claro. Tudo perfeitamente desenhado para deixar a classe média assustada com o quanto pode ser desprezível em seus instintos, em sua tênue estrutura social.
Quer saber? Quase me enganou. Deve ser porque eu sou de classe média, enfim. Talvez o Meirelles seja um pouco parecido comigo, querendo fingir que não é de classe média. Mas os nossos intelectuais, tucanados, não se perderão no labirinto destes questionamentos: ouvi dizer que o filme não foi bem aceito na terra do Tio Sam. Como puderam? Só de raiva temos de indicá-lo ao Oscar, eles vão ter de engolir nossas mazelas, que são as mazelas deles mesmos, mazelas que compartilhamos, como irmãos, enfim. Nem a ironia do duvidoso final feliz salva Blindness de ser insosso.
2/10/2008

Imagina que tu és dono de uma espelunca qualquer, no centro da cidade, um moquifo que aluga quartos para pessoas não exatamente em boas condições financeiras. O local já teve seus dias de glória, em um passado que pode ser divisado em raros momentos. Talvez a mobília antiquada seja a melhor pista de que este hotel de meia estrela já foi a residência de pessoas abonadas e de bom gosto.
Num dia qualquer de uma semana que tu achaste que não ia lembrar mesmo, ela chega, e pede para ficar em um quarto tão anônimo quanto o dia em que ela chegou. Em tempo: tu também não lembras da cara da figura, tão amassada quanto a da maioria dos teus clientes. Bah, eu disse “clientes”?
O lugarzinho de péssima reputação que é responsável pelo teu mirrado sustento obviamente não serve café da manhã, e, se servisse, provavelmente seria cerveja morna que os ébrios do dia anterior deixaram no balcão. É numa dessas manhãs, do tipo que começa mal às dez da manhã, que acontece. Para variar, tu estás no pior lugar e na pior situação, e não estou falando de civis desavisados no Afeganistão: estou falando de você, a pessoa sentada no vaso sanitário que poderia ter servido de locação para a cena mais célebre de Trainspoting.
Neste momento de profunda introspecção, o velho piano da sala resolve emitir sons que que tu juravas que não eram mais possíveis. E a voz doida começa a cantar. Sim, pessoas normais não costumam cantar daquele jeito. Aliás, pessoas normais não costumam fazer percussão com objetos improváveis sobre as partes ainda resistentes da sofrida mobília. As mesmas pessoas normais não berram refrões do tipo Mary Ann was a bitch, Mary Ann is a bitch, Mary Ann is a biiiieeeeetch como se fossem bêbados se arrastando, letras sobre figuras lendárias em situações triviais humilhantes, e nem terminam canções com espirros que realmente parecem espirros.
A Natureza te deixa numa situação complicada, e você não pode agir neste momento crucial da sua existência como empreendedor do ramo hoteleiro. Tudo que te resta é relaxar no trono, e esperar que os seus clientes estejam devidamente anestesiados e chapados o suficiente para não deixar os quartos imediamente.
Ilusão, vã ilusão, como tu percebes ao finalmente se liberar de seu compromisso com o ciclo da vida e a pirâmide alimentar, ainda arrumando a camisa fedida dentro das calças velhas que não conhecem cinto: o povo todo desceu, e parece uma festa circense francesa da década de vinte na percepção de alguém que se amarra em clichês. Tipo eu, manja? Bom, tem um cara vestido de urso, e isso sustenta, junto com as roupas velhas, o aspecto de festa francesa e circense e tudo mais. Ah, ela canta sobre alguém que lê Fitzgerald e Hemingway, o que já diz muita coisa.
Neste momento, tu nem lembras mais o que ia falar. Abraçado a uma garrafa quase vazia de vódega com o rótulo esfrangalhado, você canta junto as histórias surreais. Do teu lado, o cara vestido de urso batuca do lado do piano, depois opera uma bateria eletrônica vagabunda, e, diabos, um baixo acústico que parece saído de algum show do Stray Cats.
Isso aí: disco bom bagarái.
30/09/2008

Após o aclamado LP Three Cheers for The Newly Deads, foi uma estratégia inteligente da banda sueca sair com um EP. O EP possui algumas virtudes interessantes. A primeira é diminuir expectativas: se for bom, mantém a reputação, e, se for ruim, será esquecido na segunda camada da discografia. A segunda é permitir liberdades experimentais, diminuindo tanto a vontade de dar certo quanto a necessidade de não ser apenas o que o primeiro disco mostrou.
O EP de nove faixas é dividido pela metade: cinco faixas novas, três remixes das faixas novas, e um remix de uma faixa velha. A impressão inicial é de uma pequena queda na empolgação, principalmente nos arranjos vocais, ponto alto do disco de estréia. Parece que a dupla está mais contida, um pouco tímida. Mesmo Smile, a mais espontânea das faixas, parece carecer de mais energia.
Die By Numbers, em sua versão original, é um experimento infeliz pelo excesso de efeitos eletrônicos que já eram cafonas em 1986. A versão remixada corta fora estes exageros, e soa como se fosse algo feito entre o primeiro e o segundo disco do VNV Nation. Não é pior dos destinos, resultando em uma faixa interessante.
O remix de Stormbringer é a única encheção de lingüiça. Já era uma faixa menor da estréia, e seu remix pouco difere do original. Os remixes das faixas novas, por outro lado, são muito bons. Um dos méritos da dupla sueca é deixar pontas e espaços em suas canções originais, de modo que elas permitem revisões inspiradas dos remixadores. O gesto de abdicar da excessiva produção é louvável.
Seria injusto dizer aqui que as faixas originais ficam melhores em suas versões remixadas, mas, diabos, é verdade. Nesta linha, vale ressaltar o bom impacto da faixa-título, e abrir um parágrafo especial para World Coming Down.
A faixa cinco é uma síntese muito peculiar do que o Ashbury Heights representa. O ritmo é nervoso, com a dinâmica chaveando de estrofe para refrão de forma bruta e plenamente justificada, preservando a pegada. O estilo transpira contemporaneidade: vai hardcore, vai pop, vai minimalismo, vai farofada, tudo em um bloco que transcende as restrições alternativas do futurepop, algo que daria para chamar de electrohardpop, se fosse para sintetizar um rótulo. Tá, um disco inteiro com clones de World Coming Down não seria lá essas coisas, mas já dá uma idéia de por onde a banda pode começar no segundo álbum.
22/09/2008
Segunda-feira linda, o Sol prometendo uma primavera intensa, cumpro meu caminho do Morro das Pedras até o Itacorubi da melhor forma: circundando a Lagoa da Conceição. Quando desço a face do morro que olha a Trindade, descubro que a escola Sarapiquá promove um festival de rock.

Aí me ocorrem todas aquelas considerações antigas sobre como as pessoas politicamente corretas podem ser inocentes ao ponto de batizarem um evento de escola jovem com uma palavra, no mínimo, constrangedora. Ah, para o caso de tu seres uma dessas pessoas puras e inocentes, basta dizer, sem pausas, o nome do festival, ok?
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Aproveitando o embalo, já viram o que aprontaram com Tropa de Elite nos EUA? Dá uma olhada na coluna do Ricardo Calil.
10/09/2008

Ainda que esteja longe de diagnosticar uma conspiração contra a liberdade de expressão, não posso me furtar a perceber que a tecnologia tende a tornar nossa vida mais fácil e mais plana; no sentido anglófono, equivaleria ao nosso proverbial “sem graça”.
Em pontos mais salientes desta superfície de eventos e conclusões, você deve ter se descoberto incapacitado de lembrar números telefônicos sem o auxílio daquela demoníaca caixinha emissora de raios eletromagnéticos cancerígenos que chamam de “celular”.
Da mesma forma, seu filho nunca mais precisou se esmerar em fazer um trabalho borrado de guaxe para a aula de arte ou um mapa xexelento em papel-manteiga para a aula de geografia. Hoje em dia a molecada usa o recurso de Copiar e Colar, e temos um mundo inteiro de onde copiar. Aliás, diversos acadêmicos também o fazem.
Apesar de toda a interatividade que o mundo cibernético nos promete, pouco se viu da concretização desta promessa: a televisão continua recheada de programas irrelevantes e chatos, e você continua não podendo fazer nada quanto a isso. Exceto desligar, é claro.
Nos últimos dias, no horário do almoço, tenho acompanhado, involuntariamente, alguns episódios da broxante corrida eleitoral em Santa Catarina. Recebi, via email, alguns artefatos hilários de nossos candidatos; ri, num primeiro instante, e logo depois tentei esquecer, pois a situação é depressiva.
Pensando no que devo fazer, quedei diante de uma questão interessante: a impossibilidade do nulo criativo. Explico.
Nos anos oitenta, a década em que passei boa parte da adolescência, meus anos de formação, as eleições ainda eram na base da cédula eleitoral, e os resultados finalizados após horas de lutas na contagem e apuração de votos. Para felicidade de mesários, a urna eletrônica, projetada aqui mesmo em Santa Catarina, pipocou por todas as partes do Brasil, e nos arremessou em uma era de apurações finalizadas antes da meia-noite. Chega de suspense por coisas que nem são realmente tão excitantes.
Entretanto, a maquininha não poderia nos facilitar um trecho da vida sem dela, da vida, roubar um naco, e um dos mais criativos: a subversão sorridente.
Naquela década de que eu falava, quando o gaudério se indignava, anulava o voto, e aproveitava para deixar uma inscrição do seu repúdio aos candidatos de merda que lhe apresentavam. Destes momentos criativos surgiam cascalhos multifacetados e pérolas nobres, conforme o grau de instrução e a criatividade do subversivo em questão. Os nomes de candidatos faziam uma das poucas alegrias na vida de mesários e fiscais.
Hoje a tristeza uniformizadora impera. Digito um número válido, e um candidato mostra sua cara, e devo confirmar, caso seja realmente o meu candidato. Se digito um número inválido, a máquina me questiona se estou bêbado ou algo equivalente, e me deixa claro que não estou sendo um apoiador da causa da democracia.
Nada de marcas pessoais ou variações bem-humoradas com a picardia e o sarcasmo de sabor local: apenas um neutro e quase envergonhador “voto nulo”. Chega a constranger. É tão chato que eu até estou procurando um candidato para votar, só para nem pensar que estou deixando de exercitar minha criatividade. Enquanto procuro, faço intervenções artísticas em seus santinhos. Me impedem de criar nomes na cédula, mas não podem me impedir de encher suas caras safadas de bigodes e óculos feitos a caneta Bic.
5/09/2008

Esta imagem não deve fazer sentido para quase ninguém além de mim, mas eu quis guardar, antes que ela se fosse. Se faz sentido para você, meus pêsames: bem-vindo ao clube!
3/09/2008

Michel Houellebecq costuma causar emoções extremas em seus críticos e em seus fãs. Ambas as facções possuem razões para sentirem o que sentem, embora provavelmente, muito provavelmente, não sejam as razões certas.
A primeira impressão que Houellebecq passa é a de um desbocado, dizem. “Oh, um desbocado!”, como diriam de Philip Roth. Se formos julgar por este aspecto, o francês vence o americano com facilidade: sua densidade de descrições de cenas de sexo por página é muito maior. Como em Roth, todavia, elas não estão ali de graça: elas fazem parte do caminho para as realizações do personagem.
Como Roth, e outros escritores contemporâneos, Houellebecq não se furta a participar de seus romances. Os enfoques são diferentes: este entra sem mesmo fantasiar seu nome, enquanto o outro se divide em objeto e observador, entre herói e narrador. E, francamente, funciona muito bem, em ambos em casos.
Com um pequeno porém, entretanto: o autor francês, talvez pela curta produção, distribuída em um curto período de tempo, parece ser mais repetitivo. Não li seu outro romance, Partículas Elementares, mas vi a adaptação de um diretor alemão. Vários elementos são comuns: o perdedor compulsivo que apenas sobrevive, renhido dentro de uma visão bastante peculiar da realidade: para ele, uma visão crua, desnudante; para os outros, apenas misoginia e preconceito.
Aqui, como lá, o perdedor encontra sua princesa, e ela é exatamente como ele precisa que ela fosse: o entende em minúcias, e se entrega ao que ambos procuram como salvação da alma em tempos desesperançados. Salvação? Sim, falo de sexo. Neste ponto, Houellebecq dá sua cartada mais impressionante, e mostra-se totalmente afinado com a atualidade, sem, entretanto, perder o gume ou ser tomado por ela. O diagnóstico de Michel é o mesmo que se escuta em qualquer boteco desclassificado na cidade: falta sexo para este povo europeu.
Se a descoberta por si é banal, cabe ressaltar a revelação por trás do truque: o sexo demanda mais do que desejo, demanda doação. Para que exista o sexo em sua plenitude, os títeres protagonistas de Houellebecq precisam esquecer-se de suas identidades, deixar de lado suas relações de hierarquia. Como Michel narra, sabe-se que outra fonte deste sexo libertador são as prostitutas tailandesas, cantadas em loas bíblicas aqui. O que Valérie fazia para canalizar sua energia sexual ou mesmo para adquirir as habilidades que demonstra a Michel, não é revelado, apenas sugerido.
Através das diversas camadas de mau humor simplista e costumes sexuais reprováveis, Michel é um espírito elevado. Aprecia a cultura, lê muito, e cita seus prediletos enquanto narra. Com este toque, Houellebecq demonstra sua teoria de que não há escapatória para o homem de classe nestes tempos, exceto as vielas mais sórdidas. A faceta cultural, entretanto, sinaliza também um certo descontrole do romancista, que deixa vazar demais de si para sua pretensa criatura. Este deslize enfraquece, por vezes, o vigor narrativo, pois indica um veio intenso que pode ser efêmero.
O destino final desta linha de raciocínio, no livro, é a manutenção do colonialismo, aquele monstro que, como imaginávamos, estava estrebuchando no século XIX. Então: era mentira. No século XXI, a Europa continua sugando as suas colônias. Ou sendo sugado por elas, de forma mais coloquial. Entretanto, as prostitutas orientais serão vingadas, e a vingança virá na forma da tragédia que se abate sobre Michel, em mais um dos pontos típicos de uma certa fórmula Houellebcq de escrevinhação de romances.
Lido ao pé da letra, Houellebecq é um chato, do tipo que resmunga o tempo todo, soltando farpas para todos os lados. São atingidos ecochatos, muçulmanos, empresários, yuppies, hippies, feministas, velhos, jovens, e, se não me engano, sobra para comunistas também. Há de se tomar alguma distância, e observar as entrelinhas da bem costurada prosa de Houellebecq: ali, nas amarrações bem pensadas, segue um anti-herói com fôlego o suficiente para filosofar de modo relevante nossos dias, esses dias idiotas e hipócritas.
Um momento para desvendar espíritos: se você se incomodou com as “razões certas”, bem, você já se alistou em um dos exércitos em torno de Houellebecq. Quanto a mim, vou aplaudir bem baixinho, aqui do meu canto; se ele não se leva a sério, porque deveria o leitor fazê-lo?