13/03/2009

Este espaço vai ser fechado em alguns meses, mas o sinestesia continuará em novo endereço. O Wordpress, além de ser a ferramenta mais legal para escrever na rede, hospeda espaços virtuais de forma criativa e efetiva. Chega de upgrade e conta de servidor: meu negócio aqui é só escrever. Não consegui um domínio “sinestesia”, pois alguém já havia utilizado; uma pena. A formatação do espaço ainda não é a definitiva, assim como os cacarecos acessórios. Conto com críticas e comentários para deixar tudo bonito e amigável.
10/03/2009

Eu não lembro direito quando comprei o tapete de frente da porta do meu apartamento. Antes dele havia um tapete genérico, de uma coloração inexata que remetia ao preto, mas sem se comprometer claramente com a cor em questão. Ou a falta de. Sempre fui um mau aluno em óptica.
O tapete antigo carregava areia de quase duas décadas, aparentava. Por mais que apanhasse, se recusava a libertar seus grãos queridos. Parecia uma mãe sufocadora, excessivamente zelosa. Levei-o para um retiro, próximo ao mar, onde, aos poucos, ele vai perdendo seu peso excessivo.
Em seu lugar, ficou um tapete verde, adquirido na Cassol ou na Milium, ou ainda em algum outro lugar. Tenho poucos pruridos em relação a ser trivial, então não me incomodei com a expressão “Bem Vindo” grafada em verde mais forte sobre seu vago verde claro. O verde de fundo era discreto como sói a um bom capacho de porta, quase como se fosse um verde musgo bem fraco.
Ao colocar o tapete diante da porta, optei por deixar o sentido correto de leitura apontado para quem chegasse ao apartamento; pensava sempre em dar boas-vindas ao visitante. A moça da faxina, entretanto, cultivava idéias distintas. Após a limpeza, não raro eu encontrava o tapete com sua mensagem apontada na direção da porta.
Concluí que a moça da limpeza tinha alguma ligação com o Seicho-No-Ie, e, por conta de meu gosto pela filosofia oriental, sorri. Na minha cabeça, ela estava dando ao morador a chance de começar o dia de uma forma otimista. O cara sai pela porta, meio macambuzio, e dá de cara com o mundo lhe convidando a adentrar seu espaço. Dá até para imaginar um Sol sorridente lhe dizendo “Bem Vindo”.
Ressalto que do meu café da manhã não constam estupefacientes ou alteradores de consciência. Limito-me a chá com fatias de pão e creme de avelã com chocolate, ou granola com iogurte.
No sábado, meu tapete desapareceu. Eu tinha uma ligação especial com ele, mas ele estava com um dos cantos estourados, de modo que não o vejo como um objeto de desejo consumista de alguém. Não chego a suspeitar de conspirações intra-bloco, mas fico um pouco ressabiado, e acreditando um pouco menos na humanidade.
2/03/2009

Cafe Tacuba, ou Cafe Tacvba, é o tipo de nome de banda que te faz, no mínimo, curioso. Fazendo um paralelo, é quase como o que acontece com os títulos dos livros do Milan Kundera. Junte a isso algumas referências elogiosas em algumas páginas internáuticas de algum renome para minha pessoa, e lá estava este escriba escrevendo “cafe tacuba” na linha de busca de seu P2P.
O primeiro pacote que veio foi o Acústico da MTV. Mexicana, provavelmente. Coisa fina, principalmente depois que a gente se acostuma com o estilo estridente do vocalista. Os caras fazem um apanhado de sua considerável carreira, com arranjos não tão acústicos assim, mas com inegável qualidade, com um olho no pop, e outro no folclore mexicano. Eu traçaria um paralelo dos mexicanos com os cariocas do finado Los Hermanos, pela mistura acurada de elementos tradicionais e modernos, mas pareceria demais com um trocadilho.
Estou tentando parar, entenda.
Contudo, não é do Acústico que eu quero falar, até porque faz muito tempo que eu venho ouvindo-o, e as impressões já estão um tanto fundas demais. Falo de Sino, último disco dos caras. A proposta deles, estampada desde o princípio do disco, é fornecer um sucedâneo mariachi das bandas que seguem a linha Radiohead fase Pablo Honey e The Bends, algo como um Coldplay de sombrero. Perfeito para reforçar minhas aulas de espanhol, e ainda preencher as necessidades diárias de melancolia poética e melodias corretas.
Na encruzilhada entre Creep e O Vencedor, é aí que reside Sino. Os arranjos vocais de Tengo Todo e 53100 convivem de forma serena com suas letras que remetem a auto-ajuda para perdedores, no instante específico de sua derivação; de duas uma: ou o cara vira um Tyler Durden, ou parte para aquela tristeza suburbana com óculos quadrados e all-star.
Tudo parece ir bem, ou, pelo menos, razoavelmente bem, até que começa Volver a Comenzar. Eu não disse antes, mas o povo do Cafe Tacuba curte atochar umas heterodoxias arriscadas nas músicas. Nesta canção, temos uma batidona disco descarada, o que não se configuraria um problema, se não fosse o timbre do teclado que entra logo depois, coisa digna de Sulivan e Massadas nas produções mais toscas das Paquitas, coisa detestável, que deixa o cara triste pelos motivos errados. Volver a Comenzar é feita em três partes, sendo que a ruim mesmo é a primeira, o que não ajuda muito, pois o vivente não vai esperar cinco minutos até as partes boas, sendo que a última nem tão boa é, no frigir dos ovos.
Fica injusto, entretanto, estigmatizar todo o disco por conta de um teclado. Os arranjos instrumentais estão acima da média, e o sorvete na testa de certas letras é o mesmo que abunda nos álbuns de Keane e Coldplay; a diferença é que a gente não presta tanta atenção quando o sorvete é em inglês. Além disso, os caras são mexicanos, cáspite. Se alguém tem o o direito de ter um sorvete na testa, diabos, é o povo que cria e cultua novelas mexicanas, que conseguem ser mais poderosas do que as brasileiras no quesito tosqueira. O disco é um dos melhores lançamentos da música pop em idioma espanhol em 2007: tem densidade, boas canções, e instrumental bem executado.
Beleza, o mau gosto tecladístico volta em Agua. O que mais dói é que as linhas de baixo são muito boas, assim como as guitarras. Resumindo, só vá ao show dos caras quando o tecladista estiver de molho, em casa, sofrendo os sintomas devastadores de um porre de cerveja Colônia.
19/02/2009

Contrapor o livro a uma de suas versões para o cinema é um exercício que pode desandar pela simples observação de como as cenas das páginas foram transpostas para as telas, ou para um cômputo de quantas modificações foram feitas ou quantas partes foram deixadas de fora. Certos expedientes viáveis em livro simplesmente não funcionam em película, e vice-versa, de modo que a comparação é, no mínimo, injusta. Ainda assim, o filme pode apoiar a resenha do livro pela melhor percepção dos pontos discordantes entre tela e página.
O romance de Graham Greene é tão fluido por apoiar-se num dipolo bem estruturado: o contraponto entre os personagens enquanto metáforas de seus países de origem, e suas contrapartes cruamente humanas. Pyle, o americano tranqüilo do título, é jovem, forte, confiante, e tremendamente ingênuo. Fowler, o jornalista inglês, é cínico como só um império desabado poderia ser. Phuong, a gueixa indochinesa, é alheia a quase tudo e incompreendida por ambos, que a desejam também, cada um por razões distintas. Outras metáforas podem ser escavadas nas personagens de Vigot, Joe, Granger, Domínguez, Thé, Heng, e a irmã de Phuong, mas escribas melhores já devem ter palmilhado este caminho.
O aspecto humano é o outro lado da narrativa. Pyle se aproxima de Fowler procurando amizade, e Fowler se apega a Pyle com uma mistura de paternalismo e diversão; um bobalhão como Pyle é um alvo irresistível para a chacota contínua de Fowler. Phuong, por sua vez, se deixa levar pelo instinto de sobrevivência, aguçado pelos sucessivos empurrões de sua irmã.
Para o distanciamento entre livro e película, há de se levar em conta que o filme foi produzido na mesma época em que ocorriam a segunda série de patuscadas ianques no Golfo. A forma de enxergar a idiotice da guerra se modificou com o passar dos anos. O livro é 1955, o filme é de cinqüenta anos após, e isto fica claro na forma como Pyle encara Fowler depois do atentado na praça.
No livro, o tempo de percepção da leitura permite que o mesmo parágrafo contenha as divagações pessoais de Fowler, seguidas abruptamente da noção de que objetos foram arremessados, e de que sua mesa decolou para outra parte do bar. Quando os dois se encontram, Pyle deixa claro que está atordoado, mas ainda consciente do que está fazendo. Seu ideal suplanta qualquer escrúpulo, e os fins justificam os meios, sem necessidade de exames de consciência. No filme, os recursos para antecipar a explosão, e para ilustrar a descoberta efetiva de Fowler, ambos são desengonçados.
O escritor também leva vantagem quando se trata de descrever as condições interiores de Fowler. No filme, o personagem interpretado por Michael Caine parece bem escudado por seu sarcasmo, enquanto no livro ele se afunda no desespero bem específico de envelhecer sozinho numa existência desolada.
A prosa de Greene, vale lembrar, nos conduz pela bem amarrada trama de forma firme e sem solavancos. Seu romance tem um gosto de crônica estendida, tanto pelo estilo leve quanto pela descrição acurada de costumes das pessoas nos locais onde cada capítulo se passa. Perfeito para quem quer prazer na leitura sem deixar de lado o enlevo da inteligência.
Um trecho, extraído da página 49:
(…)
Foi o meu primeiro impulso instintivo no sentido de protegê-lo. Jamais me ocorrera que havia necessidade ainda maior de proteger-me. A inocência, mesmo sem falar, sempre solicita nossa proteção, quando seria muito mais sensato que nos defendêssemos contra ela. A inocência é como um leproso mudo que perdeu sua campainha, e que anda pelo mundo sem intenção de fazer o mal.
(…)
11/02/2009

O meu primeiro Huxley foi o de Admirável Mundo Novo. Assim como de muitos ele é o único. Vergonha menor, que empalidece diante da de nunca ter lido a distopia primordial e essencial de toda uma batelada de ficção científica desesperançada que se seguiu.
Curioso é ler um segundo Huxley, e este lembrar tão pouco minha empreitada anterior. Devo dizer ainda que nem seria exatamente o segundo, mas o terceiro, pois li, muito tempo atrás, um conto de Huxley, e que se aproximava mais deste Sem Olhos em Gaza do que de seu fenomenal exemplar de futurismo desolado.
Huxley sugeriu influências de Proust neste livro, e seu Anthony não deixa de cumprir o que esperamos dele. Com algumas diferenças. Quando a narrativa começa, a mãe de Anthony já está morta, e só a conheceremos por vagos fotogramas secundários ao longo da trama.
A época é outra, é notável. Huxley ainda trata seus personagens como um narrador onisciente, e sua prosa bem cinzelada rescende ao estilo digerível e bem formatado que caracterizava diversos realistas. Se o autor se permite aventuras, é no uso de uma espécie de não-linearidade contida. Os capítulos não se sucedem sobre uma linha do tempo, e, os planos temporais tampouco se distribuem de forma comportada; antes se acotovelam, buscando sobressair-se na frente do leitor.
Escrito na década de 30, Sem Olhos em Gaza consegue escapara à sua era, em parte por se furtar à modernidade de estilo. Caso tivesse se servido intensivamente de fluxos de consciência, poderia embarcar numa viagem enfadonha em direção à cafonice. Não, Huxley é contido e correto, e diversos de seus diálogos conseguem transpor as barreiras do tempo, podendo ter sido realizados na luz de algum dos dias contemporâneos. Senti isto principalmente nas passagens em que Miller e Anthony conversam no México.
O caráter autobiográfico assombra as páginas sem engessá-las. Huxley até tenta deslocar seu foco para outras paragens do palco, mas é em Anthony que residem as decepções, os amores, as traições e a referência para o restante das personagens. Desde a confusão da infância, passando pelo pedantismo idiota da adolescência e desembocando na versão apócrifa de budismo que empresta de Miller, Anthony é quem melhor se deixa entrever pelo leitor.
O que não significa, todavia, que Huxley não caminhe pelo cenário. Sua galeria de personagens pode ser muito acurada, como quando descreve Gerry, um cafajeste detestável, Hugh, o romântico lamuriento e pedestáltico, ou Mark Staithes, o fanfarrão que cansa do jogo cedo demais.
As mulheres sofrem em seu papel no universo de Huxley. As duas Amberley, mãe e filha, passam pela vida de Anthony, cada qual deixando marcas pela própria idiotice dele. O evangelho de Huxley, embora não pregue abertamente, fala de homens idiotas que traem seus amigos pro conta de mulheres frívolas e inconseqüentes, as quais acabam por sofrer também as derrocadas da vida. Entretanto, como são voláteis e volúveis, simplesmente se encaminham para outras partes da história, reclamando e se apaixonando por novos garotos e suas idéias de garotos.
A intenção de focar em Anthony deixa de apresentar qualquer dúvida na última folha, ou talvez antes, mas apenas aqui se tem certeza. O protagonista, possivelmente purgado depois de ter narrado sua aventura, se encontra num dilema existencial, onde sua nova ideologia, ou falta de, lhe deixa para definhar. Como em um surto de iluminação, ele acaba por se encaminhar para onde sente que deve ir, o que fica em aberto, sem, porém, pedir explicação. O que houve com Mary, Hugh ou Mark? Não interessa. Anthony é que fica com sua refeição espartana, a preparar-se para seu desafio. Nós sabemos, e talvez ele soubesse, que logo toda a efervescência desabaria, como ele já entrevê em suas considerações. Ali começava a caminhada para a segunda guerra e para as ditaduras monstruosas que se seguiriam, mas Anthony só sabe pregar sua paz recém-adquirida e ainda não quitada.
5/02/2009

Dos cartunistas brilhantes dos anos oitenta, pouco restou. O Angeli parou de freqüentar a noite, onde observava os tipinhos inúteis que tão bem retratava, e passou a ser movida a nostalgia e senso comum, com poucos momentos a destacar na produção atual. O Laerte, de cara o mais prolífico, se encaminhou por tiras e personagens cada vez mais herméticos, numa espécie de transcrição gráfica existencialista onde o humor é um traço fino. Do Glauco eu nunca gostei. E tem o Gonsales.
Baseando suas tiras na percepção de biólogo sobre o universo dos bichos, e a complementando com noções básicas de natureza humana e cultura pop, Gonsales construiu diversos painéis surreais que se mantém atuais. Além disso, Gonsales continua atual e ativo. Seu site nos presenteia diariamente com tiras, algumas boas, algumas ruins. Semanalmente, no mínimo, você tira o chapéu para o cara.
Nesta semana ele colocou esta aí que ilustra este texto. Babei.
Foco no primeiro quadrinho, esquecendo ou tapando o segundo quadrinho. Repare no trabalho das curvas dos corpos dos macacos em relação à curva desenhada pela trajetória deles, e na função cinética dos pequenos pontos de poeira que ficam para trás dos pequenos primatas.
Ainda no primeiro quadrinho, há o contraste entre as bocas dos primatas: o humano velho de boca fechada, e os macacos de boca aberta, em algazarra. Não há ruído descrito, pois o velho fica surdo pelo espanto, mas, diabos, são macacos em algazarra, tem de haver barulho!
Outra coisa que adoro em Gonsales é a profusão de olhos de tamanhos diferentes, mesmo quando não são estritamente necessários. Ele desenha com traços toscos, mas com resultados distintos, controlados. Suas mulheres são caricaturas brilhantes, passam uma percepção de sensualidade que parecem improváveis num traço como o que ele tem.
Vamos ao segundo quadrinho. Os dois velhos, cada um em seu banco, estão no topo de uma colina. Os suspensórios do velhinho ranzinza aparecem com mais detalhes, apesar de já ter ficado claro no primeiro quadrinho, mesmo com poucas linhas, que se tratavam dessas peças de vestuário indispensáveis ao guarda-roupas de homens elegantes.
O pombo do velho ranzinza chega sozinho e cinzento, de forma correta, enquanto os macacos se lançam em acrobacias improváveis, e o velho de tanga tem as manhas de lançar duas bananas de uma só vez. As caudas dos macacos mais altos desenham um coração aberto, e o macaco da direita aponta sua mão em direção à boca, chamando o alimento.
O fino desta segunda etapa da tira a referência pop sutil e já bem estabelecida do Tarzan, o que torna esta tira apreciável por todas as camadas de idade, e também permite que ela se eternize. Fechando a conta, o diálogo: sintético e certeiro. Gonsales, discreto e criativo, é um dos meus heróis.
4/02/2009

Depois de dez anos como usuário assíduo da Internet, é possível perceber alguns padrões no tipo de correspondência indesejada que vem se alojar em minha caixa de mensagens. Os perfis se diferenciam conforme falo de minha caixa de mensagens pessoal ou da equivalente profissional, mas, dentro de cada uma delas as coisas são claras, caberiam dentro de uma distribuição normal sem maiores melindres.
Existe a correspondência indesejada sazonal, onde o exemplo mais marcante é o das festas de final de ano, e existe uma divisão justa entre celebrações e sátiras desses eventos. Possivelmente, as sátiras sejam, no final das contas, celebrações: se existe a vontade de avacalhar algo, existe neste mesmo ser o ímpeto secreto da admiração. Alguém disse que toda verdade está grávida de seu contrário; se não é exato no aspecto filosófico, pelo menos serve como uma excelente frase de efeito para os botecos da vida.
Apesar de ter começado pela correspondência indesejada sazonal, era de um tipo independente da época que eu pretendia falar. Um tipo que depende de caprichos estatísticos, ou de alguma patuscada que reavive o lado funesto de alguma celebridade de segunda. Falo hoje das Leis de Murphy, e talvez seja inexato reduzí-las ao universo da Internet, dado que já existiam antes da rede mundial, e permeiam mesmo o vocabulário de gente que não navega, ou que o faz de forma esporádica.
Recebi pacotes diversos das Leis de Murphy: foram textos secos na era do Telnet, mensagens repassadas dezenas de vezes e recheadas de sinais de “maior que”, apresentações lerdíssimas de Power Point, algumas com as letras aparecendo uma a uma, outras com músicas inconvenientes, todas chatíssimas pela repetição. Hoje em dia sou o tipo de pessoa rabugenta, que olha feio quando alguém exclama, diante de alguma situação azarada, “Murphy já dizia…”, ou algo do mesmo calibre.
Entretanto, não convém amofinar meus pensamentos e meu fígado com tais considerações raivosas, e sim conduzir este tipo de situação para análises grandiosas, ou nem tanto, sobre a natureza humana. Pensando assim, reparei que as Leis de Murphy nada mais são do que um compêndio de situações práticas onde a expectativa atua sobre a realidade percebida pelo ser humano.
Um exemplo: “Um dispositivo terá maior probabilidade de queimar justo quando mais precisamos dele”. Ora, se podemos passar bem sem um certo dispositivo, sua falha entrará para um registro de pouca importância em nossa memória. Se, por outro lado, ele pifa quando precisamos entregar algum trabalho ou relatório crucial para nossa sobrevivência, seu crime se torna inafiançável, e gera o sentimento, largamente documentado, da crueldade intrínseca dos objetos inanimados.
Alguns corolários das Leis de Murphy falham antes disso, como aquele que diz que “Quando ligamos para um número errado, ele nunca está ocupado”. Ora, pipocas carameladas, se o número discado estiver ocupado, nunca saberemos se era o certo ou errado. A menos, é claro, que sejam verificados os números discados posteriormente, mais isto é algo metódico demais para seres humanos normais executarem no sossego dos seus lares.
A maior parte das Leis de Murphy, todavia, trata de expectativa. Existe uma vontade de repetição de eventos passados, quase como o que busca-se quando se vai em uma lanchonete de franquia: o sanduíche que vamos comer será idêntico àquele que comemos na semana passada, em todo o país. Esta vontade existe principalmente quando o ser humano quer repetir uma experiência boa, então é possível que o exemplo do sanduíche não se aplique tão bem.
Como a Geração Y viu em Matrix, a nossa realidade pessoal é moldada por nós mesmos. Temos o poder de perceber de formas distintas um mesmo acontecimento, embora este negócio de lutar kung-fu ou pilotar helicópteros escape ao escopo de uma análise calcada no budismo, ou mesmo no Paulo Coelho quando ele recauchuta Aleister Crowley. A auto-sugestão é poderosa, a ponto de não percebermos que não fizemos uma análise de falhas das coisas ao nosso redor, pelo menos não dentro de uma perspectiva linear e bem documentada. Comprimimos o tempo conforme os pontos que ativaram gravação em nossa memória, e não conforme uma escala padronizada.
Junte a vontade de repetição à não-linearidade da memória, e o universo realmente parecerá o tipo de lugar que está zoeira contigo. Os momentos de azar conseguirão ocorrer justo nas piores horas, e eu espero poder terminar de escrever este texto antes que ocorra alguma falha neste computador.
O que não prova nada, afinal escrevo por pura e simples diversão, e este texto não é vital para minha existência como ente economicamente viável. Se fosse para provocar Murphy, talvez eu devesse lavar meu carro.